
O relatório anual State of the Global Workplace, da consultoria Gallup, revela que o engajamento dos trabalhadores no mundo atingiu o menor nível desde 2020, com queda mais acentuada entre gestores e mudanças relevantes na percepção sobre o mercado de trabalho.
Em 2025, o engajamento global de funcionários caiu pelo segundo ano consecutivo, segundo o levantamento da Gallup, considerado o maior estudo contínuo sobre experiência do funcionário no mundo. O relatório analisa tendências de engajamento, percepções sobre o mercado de trabalho e bem-estar dos trabalhadores ao longo de 2025, revelando um cenário de desconexão crescente entre empregados e empregadores em diversas regiões do planeta.
Engajamento cai ao menor nível desde 2020
Depois de atingir o pico entre 2022 e 2023, o engajamento global vem em queda constante. O percentual de funcionários engajados passou de 23% em 2023 para 21% em 2024 e chegou a 20% em 2025 — o menor patamar desde 2020. O Sul da Ásia registrou a maior queda entre as regiões analisadas, com retração de cinco pontos percentuais, e nenhuma região do mundo apresentou avanço no engajamento no último ano.
Segundo a Gallup, cada ponto percentual perdido em engajamento representa aproximadamente 21 milhões de trabalhadores engajados a menos globalmente. O impacto financeiro dessa queda é expressivo: no ano passado, o baixo engajamento custou cerca de US$10 trilhões em produtividade perdida para a economia mundial, o equivalente a 9% do PIB global.

Engajamento é mais alto na América Latina, mas cai no Brasil
O declínio recente do engajamento global está fortemente concentrado nos gestores. Historicamente, líderes costumam apresentar um “prêmio de engajamento” — níveis mais altos que os dos demais colaboradores —, mas essa diferença vem diminuindo. Em 2022, o engajamento de gestores estava em 31%, contra 20% dos colaboradores individuais. Em 2025, essa distância praticamente desapareceu: os gestores caíram para 22%, enquanto colaboradores individuais ficaram em 19%.
No Sul da Ásia, o engajamento de gestores recuou oito pontos percentuais em 2025, queda muito maior que em qualquer outra região. Para a Gallup, um possível fator é o achatamento das estruturas organizacionais: a mesma pesquisa identificou redução na proporção de trabalhadores em cargos de gestão na região, sugerindo corte de posições de liderança. Estudos anteriores da consultoria também apontam que o engajamento de gestores tende a cair quando eles passam a supervisionar equipes maiores.
O engajamento dos gestores é especialmente relevante porque eles são fundamentais para a adoção de inteligência artificial nas empresas. Uma pesquisa da Gallup com a força de trabalho americana, no primeiro trimestre de 2026, identificou que o principal fator que prevê se um funcionário usa IA no trabalho — além da integração técnica da ferramenta — é se o gestor direto dele apoia ativamente essa adoção.
Enquanto a queda entre gestores preocupa globalmente, a América Latina e o Caribe — região que inclui o Brasil — apresentaram o segundo maior índice de engajamento do mundo em 2025, com 30%, atrás apenas de Estados Unidos e Canadá (31%). O Brasil teve 32% de trabalhadores engajados, acima da média regional e muito acima da média global de 20%, ainda que o dado reflita uma queda de dois pontos percentuais em relação à média móvel de três anos observada anteriormente no país.
Percepção sobre o mercado de trabalho e o papel da IA
A percepção dos trabalhadores sobre o mercado de trabalho melhorou globalmente em 2025, embora ainda esteja abaixo do pico registrado em 2019. Esse avanço veio inteiramente de trabalhadores presenciais em funções não compatíveis com trabalho remoto, cuja percepção subiu dois pontos. Já o otimismo caiu entre trabalhadores totalmente remotos (queda de cinco pontos) e entre presenciais em funções que poderiam ser remotas (queda de 14 pontos). Não houve mudança entre trabalhadores em modelo híbrido.
Duas regiões tiveram quedas acentuadas na confiança sobre o mercado de trabalho: Estados Unidos/Canadá (queda de 10 pontos) e Austrália/Nova Zelândia (queda de 12 pontos). A Austrália e Nova Zelândia, que lideravam o ranking global de otimismo entre 2022 e 2024, caíram para a segunda posição, atrás do Sudeste Asiático. Já a região dos Estados Unidos e Canadá está atualmente na penúltima posição do ranking regional, acumulando queda de 23 pontos desde 2019. A América Latina, por outro lado, seguiu na contramão dessa tendência: o otimismo com o mercado de trabalho na região chegou a 60% em 2025, empatado como o segundo maior índice do mundo.
A preocupação com a substituição de empregos por inteligência artificial também cresceu: 18% dos funcionários americanos afirmam que é provável que seu emprego seja eliminado nos próximos cinco anos devido à automação ou à IA, ante 15% registrados nos dois anos anteriores. Em empresas que já implementaram IA, esse percentual sobe para 23%. Em setores como finanças, seguros e tecnologia, quase um terço dos funcionários acredita que seu cargo pode ser eliminado no mesmo período.
O que isso significa para a gestão de pessoas
Para a Gallup, a queda no engajamento global significa que os funcionários estão cada vez mais desconectados de seus empregadores — o que afeta diretamente produtividade, crescimento e a capacidade das organizações de enfrentar mudanças disruptivas, como a própria adoção de IA. Em um mercado de trabalho relativamente aquecido em boa parte do mundo, funcionários desengajados também representam maior risco de rotatividade: tendem a buscar novas oportunidades quando o mercado está favorável e a permanecer desconectados e improdutivos quando o mercado está mais restrito.
O fato de o engajamento cair justamente entre os gestores é um ponto crítico, já que eles costumam ser a principal ponte entre os funcionários e a empresa. A Gallup destaca que essa tendência global não é uma fatalidade: algumas organizações conseguem engajar seus gestores a taxas até quatro vezes superiores à média mundial, priorizando seleção, treinamento e suporte contínuo às lideranças.








