
A inteligência artificial deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma realidade consolidada no ambiente corporativo. É o que aponta o relatório “AI at Work 2026”, do Boston Consulting Group (BCG), a pesquisa mostra que o uso da IA cresceu rapidamente entre profissionais de todos os níveis hierárquicos, especialmente entre trabalhadores da linha de frente.
Apesar desse avanço, muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para direcionar o potencial da tecnologia para ganhos efetivos de produtividade, inovação e desempenho organizacional.
O cenário acende um alerta para lideranças, gestores e profissionais de Recursos Humanos, que passam a desempenhar papel fundamental na construção de estratégias capazes de conectar tecnologia, pessoas e resultados.
Uso da IA avança rapidamente entre profissionais
Segundo a pesquisa, 74% dos profissionais de linha de frente já utilizam inteligência artificial regularmente, seja diariamente ou diversas vezes por semana. O índice representa um crescimento expressivo em comparação aos 51% registrados em 2025 e aos 20% observados em 2023.
Entre gestores, a adoção chega a 88%, enquanto entre líderes seniores alcança 93%.
O Brasil aparece entre os países com maior utilização da tecnologia, registrando 82% de adoção entre profissionais da linha de frente, superando mercados como Alemanha, Reino Unido e Espanha.
Os dados da pesquisa mostram que a inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta restrita à alta liderança ou a áreas altamente especializadas, tornando-se parte do cotidiano operacional de diversas funções corporativas.
O problema não é mais usar IA, mas saber o que fazer com ela
Um dos principais achados do estudo é que a adoção da inteligência artificial já está consolidada em grande parte das organizações. O desafio atual é garantir que o tempo economizado pela tecnologia seja convertido em valor para o negócio.
Entre os profissionais da linha de frente que utilizam IA regularmente, 42% afirmam economizar pelo menos oito horas por semana, o equivalente a um dia completo de trabalho.
O percentual sobe para 52% entre gestores e chega a 60% entre líderes seniores.
Apesar disso, a pesquisa identificou que 66% dos profissionais operacionais afirmam receber pouca ou nenhuma orientação sobre como utilizar esse tempo liberado pela tecnologia.
Na prática, muitas empresas conseguem aumentar a eficiência individual, mas ainda não possuem estratégias claras para direcionar esse ganho para atividades mais relevantes e de maior impacto organizacional.
Falta de direcionamento gera desperdício de potencial
O relatório classifica esse fenômeno como um “vazamento de valor”.
Isso acontece quando a inteligência artificial libera capacidade produtiva dos profissionais, mas a organização não estabelece processos, metas ou prioridades capazes de transformar essa disponibilidade em resultados concretos.
Mais da metade dos profissionais de linha de frente não reinveste o tempo economizado em atividades de maior valor estratégico.
O dado demonstra que a transformação digital não depende apenas da implementação de ferramentas tecnológicas. Ela exige direcionamento, planejamento e alinhamento entre liderança, cultura organizacional e objetivos empresariais.
Para RHs e gestores, o cenário reforça a importância de desenvolver novas formas de gestão do trabalho, capazes de integrar a IA às rotinas corporativas de maneira estruturada.

Inteligência artificial está mudando funções e competências
O estudo também revela que os impactos da IA vão além da produtividade.
Segundo os entrevistados:
- 72% afirmam que a tecnologia já alterou as expectativas de habilidades para suas funções;
- 67% dizem que tarefas mais simples passaram a ser executadas pela IA;
- 60% acreditam que os padrões de desempenho ficaram mais elevados;
- 52% relatam aumento no tempo dedicado à revisão e correção de conteúdos produzidos pela tecnologia;
- 47% afirmam que passaram a gerenciar e direcionar a IA em vez de executar determinadas atividades diretamente;
- 41% relatam aumento na quantidade de decisões que precisam tomar.
Os números indicam uma profunda transformação na natureza do trabalho, exigindo novas competências relacionadas à análise crítica, tomada de decisão, supervisão tecnológica e resolução de problemas complexos.
Requalificação profissional torna-se prioridade
Diante das mudanças provocadas pela inteligência artificial, a capacitação contínua passa a ocupar posição estratégica nas organizações.
O estudo aponta que empresas mais avançadas em suas estratégias de IA investem significativamente mais em requalificação profissional e participação dos colaboradores nos processos de transformação.
Nesse contexto, o papel do RH ganha ainda mais relevância.
Além de apoiar a adoção tecnológica, as áreas de gestão de pessoas precisam liderar iniciativas voltadas ao desenvolvimento de competências, preparação de lideranças e adaptação das equipes às novas exigências do mercado.
A combinação entre tecnologia e desenvolvimento humano tende a ser um dos principais diferenciais competitivos das organizações nos próximos anos.
Estratégia supera tecnologia na geração de resultados
O relatório identifica três níveis de maturidade na adoção da inteligência artificial.
O primeiro está relacionado ao uso da tecnologia para aumentar a produtividade individual. O segundo envolve o redesenho de processos e fluxos de trabalho. Já o terceiro contempla a criação de novos produtos, serviços e modelos de negócio impulsionados pela IA.
Segundo o estudo, empresas que avançam para estágios mais estratégicos apresentam melhores resultados em produtividade, satisfação dos colaboradores, percepção de valor e confiança na liderança.
A principal diferença entre elas não está nas ferramentas utilizadas, mas na clareza estratégica, na governança e no investimento realizado nas pessoas.
O levantamento conclui que o sucesso da inteligência artificial depende menos da tecnologia adotada e mais da capacidade organizacional de transformar seu potencial em valor sustentável.
O futuro da IA no trabalho será definido pela estratégia
A pesquisa mostra que a inteligência artificial já está integrada à rotina de milhões de profissionais e continuará ampliando sua influência sobre a forma como o trabalho é realizado.
Entretanto, a verdadeira transformação não depende apenas da adoção de novas ferramentas. Ela exige revisão de processos, desenvolvimento de competências, fortalecimento da liderança e definição clara de objetivos organizacionais.
Para empresas, gestores e profissionais de RH, o desafio deixa de ser tecnológico e passa a ser estratégico. As organizações que conseguirem alinhar pessoas, processos e inteligência artificial estarão mais preparadas para capturar os benefícios da transformação digital e construir vantagens competitivas duradouras.








