
O burnout deixou de ser um problema restrito a casos isolados para ocupar um espaço cada vez mais relevante nas estratégias de gestão de pessoas. Com o aumento dos afastamentos por transtornos mentais e a crescente atenção das empresas à saúde psicológica dos colaboradores, compreender quais profissionais estão mais expostos ao esgotamento tornou-se uma necessidade para líderes e equipes de Recursos Humanos.
Um levantamento da consultoria Gupy reforça esse cenário ao identificar os setores com maior concentração de profissionais em faixa crítica de burnout. Varejo, educação e marketing aparecem nas primeiras posições do estudo, evidenciando que atividades marcadas por alta pressão, contato constante com o público e ritmo acelerado tendem a oferecer maior risco para a saúde mental dos trabalhadores.
Mais do que apontar os segmentos mais vulneráveis, a pesquisa mostra que o burnout não está relacionado apenas ao porte da empresa ou ao perfil da atividade. O levantamento indica que o esgotamento profissional é um desafio estrutural, que exige mudanças na forma como as organizações gerenciam pessoas, distribuem demandas e constroem seus ambientes de trabalho.
Quais setores apresentam maior risco de burnout?
De acordo com o estudo, o varejo e o atacado lideram o ranking, com 10,79% dos profissionais classificados na faixa crítica para burnout. Em seguida aparecem os setores de educação, com 9,87%, e marketing, publicidade e comunicação, com 9,67%.
Embora atuem em áreas diferentes, esses segmentos compartilham características que ajudam a explicar os resultados. Em comum, estão a necessidade de lidar continuamente com o público, a pressão por desempenho, o cumprimento de metas e uma rotina marcada por alta intensidade de trabalho.
Esses fatores aumentam a exposição ao estresse ocupacional e reduzem os períodos de recuperação física e emocional, favorecendo o desenvolvimento do esgotamento ao longo do tempo. Em muitos casos, o desgaste ocorre de forma gradual, tornando difícil sua identificação antes que os impactos se tornem mais significativos.
A pesquisa também demonstra que o problema não está concentrado em um único perfil de empresa. Entre as pequenas organizações, 58,73% dos profissionais apresentam algum nível de exposição a riscos psicossociais. Nas empresas de médio porte, esse percentual chega a 53,60%. Já nas grandes organizações, o índice alcança 58,85%, enquanto companhias com mais de mil colaboradores registram 45,90%.
Os dados mostram que o crescimento da estrutura organizacional, por si só, não elimina os fatores que favorecem o burnout. Em vez disso, evidencia que diferentes modelos de gestão enfrentam desafios semelhantes quando o assunto é saúde mental.
Por que o burnout se tornou uma preocupação estratégica?
O avanço do burnout acompanha uma transformação mais ampla no mercado de trabalho. Nos últimos anos, saúde mental, qualidade de vida e experiência do colaborador passaram a ocupar um papel central nas estratégias de gestão de pessoas, deixando de ser apenas iniciativas voltadas ao bem-estar.
Desde 2019, a Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como uma síndrome decorrente do estresse crônico relacionado ao trabalho que não foi administrado adequadamente. A condição é caracterizada por três aspectos principais: sensação persistente de esgotamento, distanciamento emocional em relação às atividades profissionais e redução da eficácia no desempenho das funções.
Isso significa que o burnout dificilmente surge por causa de um único episódio. Na maioria das vezes, ele é resultado da combinação de diferentes fatores organizacionais, como sobrecarga de trabalho, pressão constante por resultados, falta de autonomia, comunicação ineficiente e ausência de suporte por parte das lideranças.
O contexto brasileiro também reforça a importância do tema. O aumento dos afastamentos por transtornos mentais e a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir a consideração dos riscos psicossociais na gestão de saúde e segurança do trabalho, ampliam a responsabilidade das empresas na prevenção desses fatores.
Nesse cenário, cuidar da saúde mental deixa de representar apenas uma preocupação social e passa a integrar a agenda de compliance, gestão de riscos e sustentabilidade organizacional.

Liderança e prevenção são fundamentais para reduzir o esgotamento
Os resultados do levantamento indicam que a prevenção ao burnout depende menos de ações pontuais e mais da construção de ambientes organizacionais capazes de equilibrar desempenho e bem-estar.
Para isso, lideranças e equipes de Recursos Humanos desempenham um papel decisivo. Acompanhamento da carga de trabalho, definição de metas compatíveis com a capacidade das equipes, comunicação transparente e canais permanentes de escuta são algumas das práticas que contribuem para reduzir fatores associados ao esgotamento profissional.
Além disso, a adoção de indicadores relacionados ao clima organizacional e à saúde mental permite identificar sinais de desgaste antes que eles evoluam para situações mais graves. Essa abordagem preventiva tende a gerar benefícios tanto para os colaboradores quanto para a própria organização, reduzindo afastamentos, fortalecendo o engajamento e melhorando a retenção de talentos.
À medida que o mercado passa a reconhecer a saúde mental como um componente essencial da produtividade, o burnout deixa de ser tratado apenas como uma questão individual e passa a representar um indicador da qualidade da gestão.
Os dados da Gupy reforçam justamente essa mudança de perspectiva. Empresas que conseguem desenvolver lideranças preparadas, distribuir melhor as demandas e construir ambientes psicologicamente mais seguros estarão mais bem posicionadas para enfrentar os desafios da gestão de pessoas nos próximos anos.
Mais do que atender exigências regulatórias, investir na prevenção do burnout significa fortalecer a sustentabilidade do negócio e criar condições para que pessoas e organizações cresçam de forma equilibrada e duradoura.








