
ESG parou de ser um termo de sustentabilidade para virar item de pauta em conselho, em auditoria e, cada vez mais, na mesa do RH e do Departamento Pessoal.
Isso porque ESG não é só sobre meio ambiente, mas sobre como a empresa trata pessoas, como toma decisões e como presta contas disso para investidores, clientes e para o próprio time.
Neste artigo você vai entender o que é o conceito de ESG, o que significa a sigla, quais são os 3 pilares, a diferença entre ESG e sustentabilidade, e o que muda na prática para empresas brasileiras a partir de 2026.
O que é o conceito de ESG e como ele surgiu?

ESG é um conjunto de critérios usados para avaliar o quão responsável uma empresa é em três frentes: ambiental, social e de governança.
A sigla surgiu oficialmente em 2004, em uma publicação do Pacto Global da ONU em parceria com o Banco Mundial chamada Who Cares Wins.
O documento nasceu de uma provocação do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a 50 CEOs de grandes instituições financeiras, sobre como integrar fatores sociais, ambientais e de governança no mercado de capitais.
Na mesma época, a UNEP-FI (iniciativa financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) lançou o relatório Freshfield, mostrando como esses fatores impactavam a avaliação financeira das empresas.
Dois anos depois, em 2006, veio o PRI, os Princípios de Investimento Responsável, que hoje reúne milhares de signatários com trilhões de dólares em ativos sob gestão.
Vale lembrar que a lógica por trás do ESG não nasceu do zero em 2004. Ela tem raiz no modelo Triple Bottom Line, criado por John Elkington em 1994, que já defendia que a gestão empresarial precisa equilibrar resultado econômico, impacto social e impacto ambiental.
O conceito só ganhou força de fato quando dois marcos globais reforçaram a agenda: a Agenda 2030 da ONU e o Acordo de Paris, ambos de 2015.
Mesmo assim, o tema só virou prioridade estratégica de forma mais ampla a partir de 2020, puxado por grandes fundos de investimento que passaram a cobrar transparência ESG como condição para aportar capital.
O que significa a sigla ESG?

A sigla vem do inglês Environmental, Social and Governance. Em português, a tradução mais usada é Ambiental, Social e Governança, às vezes também chamada de ASG.
Cada letra representa uma dimensão de avaliação:
| Letra | Significado em inglês | Tradução | O que avalia |
| E | Environmental | Ambiental | Impacto da empresa no meio ambiente |
| S | Social | Social | Relação com colaboradores, comunidade e sociedade |
| G | Governance | Governança | Estrutura de decisão, ética e transparência |
Não existe hierarquia entre as letras. Uma empresa não é ESG só porque planta árvores, nem só porque tem um bom código de conduta. A avaliação é sempre conjunta.
Quais são os 3 pilares do ESG?

Os 3 pilares do ESG são justamente ambiental, social e governança. Cada um tem indicadores próprios, mas eles conversam entre si o tempo todo dentro da operação da empresa.
Ambiental (Environmental)
O pilar ambiental cobre a relação da empresa com recursos naturais. Envolve consumo de água e energia, gestão de resíduos, emissão de gases de efeito estufa, uso de fontes renováveis e política de descarbonização.
Para empresas industriais e do agronegócio, esse pilar costuma concentrar a maior parte do escrutínio de investidores e órgãos reguladores.
Social
O pilar social é o que mais dialoga diretamente com RH e Departamento Pessoal. Ele avalia:
- Diversidade e representatividade em cargos de liderança;
- Condições de trabalho, saúde e segurança ocupacional;
- Política salarial e equidade de remuneração;
- Relacionamento com comunidades e cadeia de fornecedores;
- Canais de denúncia e combate ao assédio.
Uma pesquisa recente mostra o quanto esse pilar ainda tem lacunas no Brasil. A participação de mulheres na alta liderança foi divulgada por 84% das companhias analisadas, mas apenas 33% das empresas que reportam esse dado apontaram presença de pessoas negras na alta liderança, e só 18% no Conselho de Administração.
Governança (Governance)
O pilar de governança trata da estrutura de decisão da empresa. Isso inclui composição e independência do conselho, política anticorrupção, transparência na prestação de contas, gestão de riscos e mecanismos de compliance.
É o pilar que sustenta os outros dois. Sem governança sólida, práticas ambientais e sociais tendem a virar ação isolada de marketing, sem continuidade real.
ESG e sustentabilidade: é a mesma coisa?

Não exatamente. Sustentabilidade é um conceito mais amplo, ligado à ideia de atender necessidades presentes sem comprometer as futuras gerações.
ESG é a forma de medir, estruturar e reportar essa sustentabilidade dentro de uma empresa. É o conjunto de critérios que transforma um valor abstrato em indicador auditável.
Na prática, toda estratégia ESG carrega compromisso com sustentabilidade, mas nem toda ação de sustentabilidade segue metodologia ESG.
Uma campanha de reflorestamento pontual é sustentabilidade. Um relatório anual com metas de redução de carbono, indicadores de diversidade e estrutura de governança auditada é ESG.
O que é ESG nas empresas, na prática?
Nas empresas, o ESG deixou de ser departamento isolado de sustentabilidade e passou a atravessar áreas inteiras: jurídico, financeiro, operações e, principalmente, gestão de pessoas.
Isso acontece porque investidores, bancos e grandes clientes B2B passaram a exigir relatórios ESG como critério de decisão.
Empresas com bom desempenho ESG tendem a acessar linhas de crédito mais vantajosas e a ganhar preferência em processos de concorrência corporativa.
Do lado do consumidor, o efeito também é mensurável. Um levantamento da Nexus, divulgado em 2024, mostrou que 19% dos consumidores brasileiros consideram as práticas ESG um dos três principais pilares para a boa reputação de uma marca, e que a ausência dessas práticas é o fator mais citado como responsável por uma avaliação negativa da empresa, apontado por 26% dos entrevistados.

O que muda com a regulação ESG no Brasil em 2026?
Em 2023, a CVM publicou a Resolução 193, que dispõe sobre a elaboração e divulgação do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base no padrão internacional emitido pelo International Sustainability Standards Board (ISSB).
Essa norma previa adoção voluntária a partir de 2024 e obrigatória para companhias abertas a partir de 2026.
No entanto, em 29 de maio de 2026, a CVM publicou a Resolução 244, que alterou esse cenário.
A nova resolução tem como principal mudança a remoção da obrigatoriedade que a redação original impunha às companhias abertas depois do período de adoção voluntária, buscando preservar a liberdade das empresas de avaliar custos e benefícios da divulgação.
Ou seja, o relatório ESG financeiro nos moldes do ISSB deixou de ser obrigatório em 2026 e passou a ser voluntário.
Ainda assim, a empresa que optar por reportar de forma voluntária precisa manter a divulgação por pelo menos três exercícios sociais consecutivos, e avisar com antecedência caso decida interromper o reporte.
Isso não significa que a pressão por ESG diminuiu. Pelo contrário. A obrigatoriedade regulatória recuou, mas a cobrança de mercado, de investidores e de grandes clientes segue firme, e tende a se tornar o novo filtro de reputação nos próximos ciclos.
Além da CVM, outra mudança regulatória de 2026 afeta diretamente o pilar social do ESG dentro das empresas. Com a Portaria MTE nº 1.419/2024, os fatores de risco psicossociais foram formalmente integrados ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da NR-1, com a nova redação em vigor desde 26 de maio de 2026.
Na prática, isso obriga as empresas a mapear, documentar e monitorar continuamente riscos como estresse, sobrecarga e assédio, com o mesmo rigor já aplicado a riscos físicos e químicos.
Essa mudança amplia diretamente o papel de RH e DP, que passam a assumir mais responsabilidade na organização de dados e no acompanhamento de indicadores como absenteísmo e turnover.
Os números do ESG no Brasil
Os dados mais recentes mostram avanço real na adoção, mas também um gargalo importante entre intenção e execução.
O Panorama da Sustentabilidade 2025, da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AMCHAM), mostrou que 76% das empresas brasileiras já implementam práticas ESG com algum grau de maturidade, um avanço de cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Apesar do crescimento na adoção, a execução ainda esbarra em limitações estruturais.
Uma pesquisa da ESG Latin America Landscape 2025 apontou que 85% das empresas brasileiras colocam a governança corporativa ou a gestão de riscos ESG como prioridade máxima, mas o mesmo estudo revela um mercado maduro na intenção e ainda em desafio na execução.
No campo da saúde mental, o cenário reforça essa lacuna entre discurso e prática. Uma pesquisa recente mostrou que apenas 44% das empresas já haviam realizado o mapeamento de riscos psicossociais exigido pela NR-1, mesmo às vésperas da norma entrar em vigor.
Por que o ESG é pauta do RH e do Departamento Pessoal
O pilar social do ESG praticamente se confunde com a agenda diária de RH e DP. Diversidade, saúde ocupacional, equidade salarial, combate ao assédio e conformidade trabalhista são, ao mesmo tempo, obrigação legal e indicador de reputação.
Isso muda a forma como essas áreas precisam organizar seus processos. Alguns pontos de atenção diretos:
- Documentação e rastreabilidade: indicadores de diversidade, absenteísmo e clima organizacional agora funcionam como evidência de compliance, não só como relatório interno.
- Conexão entre DP e SST: o mapeamento de riscos psicossociais da NR-1 exige integração entre folha, ponto, afastamentos e segurança do trabalho.
- Transparência salarial: políticas de equidade remuneratória entram cada vez mais em pauta, inclusive como critério ESG avaliado por investidores.
- Canais de denúncia: a taxa de divulgação desses canais nos relatórios de sustentabilidade saltou de forma expressiva nos últimos anos, segundo estudo já citado, passando de 57% na primeira edição da pesquisa para 80% nos relatórios mais recentes.
Empresas que ainda tratam esses temas de forma manual e fragmentada tendem a ter dificuldade em comprovar conformidade quando auditadas, seja por órgão fiscalizador, seja por investidor.
6 práticas de ESG para aplicar no RH e no Departamento Pessoal
Aplicar ESG não depende de reformular a empresa inteira de uma vez. Depende de constância e de indicadores que resistem a uma auditoria.
Algumas práticas ajudam a sair do discurso e chegar à execução:
- Trate diversidade como métrica, não como campanha. Acompanhar representatividade em contratações, promoções e desligamentos, por gênero, raça e faixa etária, mês a mês, é o que diferencia uma política real de uma ação pontual em datas comemorativas.
- Padronize a coleta de dados de saúde ocupacional. Com a NR-1 exigindo mapeamento contínuo de riscos psicossociais, pesquisas de clima, registros de afastamento e escuta ativa das equipes precisam estar centralizados, e não espalhados em planilhas soltas por diferentes áreas.
- Audite os canais de denúncia periodicamente. Ter o canal não basta. É preciso registrar volume de denúncias, tempo médio de resposta e taxa de resolução, porque esses números viraram indicador de governança avaliado por investidores e órgãos reguladores.
- Documente critérios de remuneração. Política salarial clara, com justificativa técnica para diferenças de cargo e senioridade, protege a empresa juridicamente e sustenta metas de equidade divulgadas publicamente.
- Integre RH, DP e SST em um único fluxo. A exigência da NR-1 conecta diretamente jornada, ponto, afastamento e segurança do trabalho. Áreas que operam de forma isolada tendem a demorar mais para comprovar conformidade quando fiscalizadas.
- Revise a comunicação ESG antes de publicar. Todo compromisso divulgado precisa ter lastro documental. Relatório sem dado por trás é o principal gatilho de greenwashing e de passivo reputacional.
Greenwashing: o risco de fazer ESG pela metade
Um dos maiores riscos reputacionais hoje é a empresa se apresentar como ESG sem ter estrutura, indicador ou processo por trás disso.
É o chamado greenwashing, e ele não fica restrito ao pilar ambiental. Também existe o social washing e o governance washing, quando a empresa divulga compromissos sociais ou de governança que não se sustentam na prática.
Isso é especialmente arriscado para RH e DP, porque relatórios de diversidade, canais de denúncia e políticas de saúde mental divulgados sem lastro documental viram passivo, não ativo, no momento de uma fiscalização ou de um processo trabalhista.
A regra prática é simples: só divulgue o que a empresa consegue comprovar com dado, processo e documentação.
Como implementar o ESG na empresa
Não existe fórmula única, mas alguns passos costumam se repetir em empresas que avançam de forma consistente:
- Diagnóstico inicial, mapeando onde a empresa já está em cada pilar;
- Definição de indicadores mensuráveis, com meta e prazo;
- Envolvimento de RH, jurídico, financeiro e operações desde o início, não só da área de sustentabilidade;
- Estruturação de processos internos de coleta e registro de dados (afastamentos, diversidade, riscos psicossociais, canais de denúncia);
- Comunicação transparente, com relatório periódico que reflita a realidade, não uma versão idealizada da empresa.
Esse último ponto é o que separa empresas com ESG real de empresas com ESG de vitrine.
O que avaliar antes de estruturar uma estratégia ESG
Antes de sair publicando relatório ou metas, vale um diagnóstico interno honesto. Alguns pontos merecem checklist:
- A empresa já mapeia indicadores de diversidade em todos os níveis hierárquicos, ou só na base?
- Existe processo formal de gerenciamento de riscos psicossociais dentro do PGR, conforme exige a nova NR-1?
- O canal de denúncias tem histórico documentado de casos, prazos e desfechos?
- A política de remuneração é auditável, com critérios claros de equidade entre cargos equivalentes?
- Há alguma meta ESG sendo comunicada externamente sem indicador interno que a sustente?
- A estrutura de governança tem responsáveis definidos por cada pilar, com prestação de contas periódica?
- Os dados de RH e DP estão centralizados em um sistema confiável, ou dependem de planilhas paralelas?
Se a resposta para mais da metade dessas perguntas for negativa, o passo mais estratégico não é lançar uma campanha ESG. É estruturar o processo interno primeiro. Reputação em ESG se constrói de dentro para fora, e não o contrário.
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